terça-feira, 14 de setembro de 2010

nas ruas correram rios enquanto uma bola descia encostada ao passeio, vinda de cima sem se saber bem de onde - 'atrás de uma bola vem sempre uma criança', mas a criança não chegou e todos nos recordamos de como foi fácil perder a infância.
neste instante desceste com a igreja em pano de fundo e todas as gaivotas choraram.
depois conversávamos, todos os poetas vivem fechados no quarto, mas passou uma senhora por mim e disse

'hoje, o estado das coisas é a eternidade'

por isso lembra-te que apesar de toda a adultez não há dia em que os milagres se esqueçam de sair à rua.



e parabéns pescador-amor

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

meu primeiro grande amor, não te esqueci,

"A amnésia é má para as pessoas e também para as sociedades. Temos que saber quem somos para viver com a consciência de estar vivos. Sigamos perguntando e procurando.", (Saramago in Público, Madrid, 20 de Novembro de 2008)

mas a vida urge bem perto de mim, e não há dia em que não te peça baixinho 'a consciência de estar vivos', para que toda a busca dos sonhos diurnos não cesse.

dorme bem
bang bang, nancy sinatra

terça-feira, 24 de agosto de 2010

cheguei de férias.
o porto chovia e havia um nevoeiro denso, eu pensei: ainda bem, setembro está a chegar.
mas hoje a luz encheu a casa e pensando bem, falta-me curar o pé, sair por essas ruas enquanto não tenho horários, passar tardes a ler em cafés bonitos, talvez acampar no gerês uns dias, matar todas horas que não tive com o meu amor.

pensando bem, quero é ser feliz enquanto é tempo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

acho que me apaixonei este verão:

"(...) Durante a actividade sexual, o inconsciente ressoa, abrindo o seu caminho em cada fibra dos impulsos nervosos e da sensibilidade. A imaginação torna-se carne, ou - na fórmula definitiva de Shakespear - "deita corpo" (bodies forth).
Em contrapartida, a carne imagina e clama. Se podemos falar de encarnação, é bem aqui."

(Steiner, in Os livros que não escrevi)
"também vais viajar?"
"não, vim só despedir-me" - (silêncio)
"eu vou" - (sorriso)
- (silêncio) -

temos sempre mais saudades do que nunca chegámos a conhecer.


















(fotografia de inês d'orey, "ilhéu, graciosa")

sábado, 17 de julho de 2010

todos os dias caio, tropeço um bocadinho, todos os dias a distância do chão é a mesma, mas há dias em que estou mais alta, ou mais baixa.
todos os dias o mundo é um lugar estranho.

(ilustração de carmen segovia)